Aproveitando o ócio em que estamos por conta da quarentena e medidas de isolamento social, vou iniciar uma série de matérias sobre os principais roteiros de trekking do Brasil e do mundo, para que vocês possam usar esse tempo livre para se planejar para quando toda essa bagunça acabar. 

E como não poderia ser diferente, vou iniciar essa série com a Travessia de Montanhas mais clássica do Brasil: A Travessia Petrópolis x Teresópolis

Eu e a turma da Montanero – Foto JT Neto

A Petrô x Terê, como é carinhosamente conhecida, é uma travessia de montanha que começa em Petrópolis e termina em Teresópolis, cruzando o Parque Nacional da Serra dos Órgãos (PARNASO) de Oeste para Leste.

Vídeo do Felipe Lombardi – Drone Aventura

Clássico nacional de caminhada e montanhismo, sendo por muitos considerada a travessia mais bonita do Brasil. Com cerca de 30 km de extensão, a travessia da Serra dos Órgãos exige preparo físico e equipamento adequado. É aconselhável a presença de guia experiente, principalmente no trecho entre os Castelos do Açú e a Pedra do Sino.

Foto: www.netdiario.com.br

O roteiro clássico é feito em 3 dias com 2 pernoites em Abrigos de Montanha ou acampando nas áreas predeterminadas próximas a esses abrigos. Em 3 dias você terá tempo de sobra para aproveitar os visuais incríveis que caracterizam essa travessia.

*A Petrô x Terê pode ser feita 1, 2 ou 3 dias.
Essa é uma questão que depende do seu nível de experiência, conhecimento do percurso e condicionamento físico.

Melhor época:

Índice Pluviométrico RJ – Fonte: INPE

A melhor época para fazer a Petrô x Terê vai de maio a outubro, que é a alta temporada de montanha, quando o clima fica mais ameno, estável e a chance de chuvas é bem menor. Porém a Travessia pode ser feita em todos os meses do ano, sempre tomando os devidos cuidados, afim de evitar tempestades elétricas nos campos de altitude, que podem ser fatais. Ainda mais que o Brasil é o país com recorde de incidência de raios. 

Então fique atento quanto a meteorologia na época que você for!

Ingressos e reservas:

A gestão dos ingressos e da hospedagem nos abrigos ou campings é feita pelo ICMBio e uma empresa terceirizada, sendo necessário fazer a compra antecipada (você também pode fazer a compra no dia, porém corre o risco de não haver mais vagas disponíveis, ainda mais na alta temporada de montanha).

Tabela de preços – Fonte ICMBio

Nesse link você pode adquirir seus ingressos: http://parnaso.tur.br/comprar-ingresso/

Fique atento na hora da compra para não cometer nenhum erro com relação a datas e tipos de hospedagem: 

Amanda e Paloma próximas ao Abrigo Açu – Foto: Julianu Lorne

Bivaque: é um quarto amplo e vazio que fica dentro dos Abrigos, onde você coloca seu isolante térmico e saco de dormir diretamente no assoalho, com um pequeno gancho na parede para pendurar a mochila. O Bivaque tem capacidade para 18 pessoas e pode ser um incômodo para quem quer um pouco mais de privacidade. É bastante normal você ouvir uma sinfonia de roncos e peidos (desculpem a franqueza) durante a noite. Por estar dentro do Abrigo, você pode fazer uso dos fogões e de todos os utensílios da cozinha para preparar a sua refeição. 

Beliche: Quarto com 3 beliches com capacidade para 6 pessoas no total. Apesar de ter colchões nas camas, é ideal que você use seu isolante térmico e saco de dormir por cima do colchão. Também disponibiliza um pequeno espaço para você colocar sua mochila e equipamentos. E por estar dentro do Abrigo, você pode fazer uso dos fogões e de todos os utensílios da cozinha para preparar a sua refeição. 

Camping: Opção “raiz” para quem tem todos os equipamentos de camping e não se importa em levar uma mochila bem mais pesada com barraca, fogareiro, combustível e utensílios de cozinha… você deve ser autossuficiente. Quem fica no camping, se quer pode entrar no abrigo e também não pode usar as estruturas como cozinha ou banheiro, a não ser um banheiro que existe do lado de fora dos abrigos.

Logística:

Sendo uma Travessia, é importante lembrar que iniciamos a caminhada em um ponta A e terminamos em um ponto B. 

Dito isso você pode escolher entre chegar na Sede do Parnaso em Petrópolis, de carro próprio ou de uber: 

De carro próprio: Chegando na sede do PARNASO em Petrópolis você deve contratar o serviço de resgate para levar o seu carro para a sede Teresópolis do Parque, onde é o fim da Travessia. Assim você evita ter que voltar para Petrópolis, e após a travessia é só pegar seu carro e ir embora.
*Normalmente quem faz esse serviço de resgate para mim é o Denilson, um amigo de Petrópolis:
Denilson: Tel – (24) 99971-7285

De uber: Chegando em Petrópolis você pode pegar um uber até início da Travessia, corrida que deve ficar por volta de R$40, e sendo mais de uma pessoa, podem dividir esse valor entre vocês. Na saída da Travessia em Teresópolis você pode caminhar até a portaria do Parque e pegar um uber até a rodoviária da cidade, corrida que fica por volta de R$20.

Equipamentos: 

Pés:

•Bota impermeável
•Meias próprias para trekking (3 pares)
•Chinelo ou papete

Membros inferiores: 

•Calça-Bermuda
•Bermuda leve
•Calça térmica: para dormir
•Roupa íntima (3 unidades)

Tronco e membros superiores:

•Segunda pele ou camisa de trilha (3 unidades)
•Camisa Térmica
•Fleece
•Jaqueta de pluma leve
•Anorak
•Luva

Cabeça:

•Boné ou gorro
•Bandana para trekking

Equipamentos importantes:

•Mochila cargueira de 50 a 70 litros
•Bastões de trekking
•Capa de chuva para a mochila
•Lanterna de cabeça
•Pilhas extras
•Óculos
•Power Bank
•Celular/Máquina fotográfica
•Isolante térmico
•Saco de dormir 0° (temperatura conforto)
•Cobertor de emergência
•Silver tape
•Isqueiro
•Mapa da travessia
•App Wikiloc
•Kit 1º socorros

Hidratação:

•Garrafa de água 1,5lt
•Bolsa de hidratação que vai na mochila
•Clorin

Camping:

•Barraca
•Fogareiro e gás
•Panela, prato, caneca e talheres
*Só para quem for acampar 

Kit Higiene pessoal:

•Sabonete
•Escova de dentes
•Creme dental
•Desodorante
•Toalha esportiva de alta absorção

Equipamentos para os trechos técnicos:

•Corda 20m
•Freio ATC
•3 mosquetões
•Cadeirinha
•Cordelete
•Fita 120cm
*Você deve saber manusear esses equipamentos

Alimentação:

Rafa agilizando o rango no Abrigo Açu
Foto: Julianu Lorne

Se você ficar nos Abrigos de montanha, a alimentação fica mais facilitada, pois os Abrigos dispõem de fogões e toda a tralha de cozinha necessária. Se ficar no camping você deve levar tudo o que você for usar, como falei anteriormente.

Café da manhã:
•Pão sírio (ou outros tipos de pães)
•Ovos
•Bacon
•Queijo
•Café

Almoço: normalmente eu faço lanches durante a caminhada e não costumo almoçar.
•Barras de proteína
•Chocolate
•Paçoquinha
•Mix de castanhas, nozes e canela
•Mix de frutas secas
•Salaminho

Jantar:
•Massa Italiana, molho de tomate e calabresa.
•Frango desfiado VAPZA
•Sopa de legumes
•Comida Liofilizada

Dia a dia:

1º dia: Sede Petrópolis x Morro do Açu
6 horas de caminhada

A caminhada até o Açú é considerada pesada devido à grande variação altitudinal. Parte-se da portaria do parque (cerca de 1.100m de altitude), chegando-se a 2.245m na Pedra do Açú. A caminhada é relativamente curta (pouco mais de 7 Km de extensão) mas demora cerca de 6 horas para o montanhista médio.

Eu, Ana Paula, Jucilene, Claudia, Carla e Dani iniciando a Travessia
Foto: Julianu Lorne

A travessia começa na Sede Petrópolis do PARNASO, no bairro do Bonfim. Após cerca de 40 minutos na trilha chega-se à entrada para a Gruta do Presidente e a Cachoeira Véu da Noiva. Mais 50 minutos de caminhada e chega-se à Pedra do Queijo, um bom local para descanso com vista panorâmica para o Vale do Bonfim e os picos da Alcobaça, do Alicate e outras montanhas de Petrópolis. Após mais 40 minutos de subida chega-se ao Ajax, local com fonte de água. O acampamento é proibido no local.

Após a passagem pelo Ajax inicia-se o trecho de subida mais íngreme de Petrópolis. Conhecido como Isabeloca, em homenagem a uma suposta passagem pelo local da princesa Isabel em lombo de mulas, este trecho encontra-se bastante erodido. A situação é agravada pelos diversos atalhos que a equipe do parque e voluntários vêm tentando fechar para evitar o agravamento da situação.

Ao fim da Isabeloca chega-se ao Chapadão, trecho mais plano de onde já se avista a Pedra do Açu, também conhecida como pico do Cruzeiro, ponto mais alto de Petrópolis, e os Castelos do Açu, interessante formação rochosa cheia de reentrâncias onde é possível se abrigar da chuva e do vento.

Próximo aos Castelos do Açu existe um dos dois Abrigos de Montanha ao longo da Travessia (o outro sendo na Pedra do Sino), o Abrigo Açu e a área de camping adjacente. Este é o local do primeiro pernoite.

Abrigo Açu – Foto: Julianu Lorne

Em noites abertas é possível observar as luzes da cidade do Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense.

2º dia: Morro do Açu x Pedra do Sino
8 horas de caminhada 

Após o espetáculo do nascer do sol atrás da Serra dos Órgãos, inicia-se o segundo dia de caminhada. Neste trecho é aconselhável a presença de guia experiente. É frequente a ocorrência de montanhistas perdidos, principalmente em dias com muita neblina. A caminhada é quase toda nos campos de altitude, formação vegetal de pequeno porte que, no Estado do Rio de Janeiro, só ocorre na Serra dos Órgãos, em Itatiaia e no Parque Estadual do Desengano.

Seguindo na direção leste chega-se ao Morro do Marco após cerca de 30 minutos. O local é facilmente identificado pela pirâmide de pequenas pedras que dá nome ao morro.

Foto: Julianu Lorne

No Morro do marco é possível pegar uma variante da trilha e conhecer os Portais de Hércules, uma espécie de mirante na beira das vertentes mais inclinadas da Serra dos Órgãos, com bela visão para a cadeia de montanhas que dá nome ao Parque. Porém se quiser ir lá, considere sair mais cedo do Abrigo Açu (eu indico sair antes do Sol nascer).

Descendo o Morro do Marco, em cerca de 30 minutos chega-se ao Vale da Luva, local coberto pela interessante mata nebular, com grande abundância de plantas epífitas, entre as quais destacam-se orquídeas endêmicas da Serra dos Órgãos. O Vale é cortado por um pequeno riacho onde é possível se refrescar e encher os cantis. 

Em seguida inicia-se a subida do Morro da Luva. O cume é alcançado em cerca de 30 minutos. Após a descida em superfície rochosa, onde a trilha não é bem marcada e o risco de se perder em dias de neblina é alto, chega-se à Cachoeirinha (mais 30 minutos), local com água abundante e ponto recomendado para descanso.

Trecho conhecido como Elevador – Foto: Julianu Lorne

A subida do Elevador, logo após a Cachoeirinha, é uma escada de ferro que exige equilíbrio para passar com mochilas cargueiras. Na sequência chega-se, após cerca de 40 minutos, ao Morro do Dinossauro, um dos pontos mais altos do parque, de onde já é possível avistar a Pedra do Sino, o Vale das Antas e a Pedra do Garrafão. A descida até o Vale das Antas leva cerca de 40 minutos. No vale estão outras nascentes do Rio Soberbo e o local tem água o ano inteiro. O camping é proibido no local em função da fragilidade do ambiente e das nascentes do rio Soberbo.

Após mais uma subida íngreme chega-se ao Dorso da Baleia, em frente à vertente da Pedra do Sino. Do local é possível avistar a maior parede de escalada (bigwall) do Brasil, onde estão as vias Franco-Brasileira e Terra de Gigantes. Após a descida de uma grota (mergulho), inicia-se a subida do paredão que leva à Pedra do Sino. A subida é íngreme e a passagem conhecida como Cavalinho é o ponto mais perigoso da travessia, sendo aconselhável o uso de cordas.

Trecho do Cavalinho – Foto: Felipe Lombardi

Após o Cavalinho, o montanhista segue por uma estreita trilha que contorna a Pedra do Sino até encontrar a trilha de subida para o cume, ponto culminante da Serra dos Órgãos (2.263m).

Eu na Pedra do Sino – Foto: Arthur Zanatto

Dependendo da hora de chegada neste ponto, pode-se optar pela subida ao cume ou descida para montar o acampamento ou se instalar no abrigo da Pedra do Sino (Abrigo 4). É proibido acampar no cume da Pedra do Sino.

Abrigo 4 – Foto: Arthur Zanatto

A subida até a Pedra do Sino à noite é altamente recomendável, principalmente em noites de tempo bom. A vista da cidade do Rio de Janeiro à noite é impressionante e vale o passeio.

3º dia: Pedra do Sino x Sede Teresópolis
5 horas de caminhada

O percurso do terceiro dia inclui apenas a descida da Pedra do Sino até a Sede Teresópolis do PARNASO. São 11 Km de descida relativamente suave com belas vistas do município de Teresópolis e do Parque Estadual dos Três Picos. Recomenda-se uma nova subida ao cume da Pedra do Sino para admirar o nascer do sol.

Abaixo da cota 2000m, a estrutura da vegetação começa a mudar. O campo de altitude é substituído por uma mata nebular, com grande quantidade de bromélias e orquídeas. A trilha sombreada pela mata passa pelas ruínas do antigo Abrigo 3, local de descanso com mirante. Os vestígios do antigo Abrigo 2 são difíceis de reconhecer em meio à vegetação.

3º dia da Travessia – Foto: Arthur Zanatto

Uma alternativa para aqueles que desejam mais aventura é fazer outras trilhas com acesso a partir do Abrigo 4, como a trilha do Garrafão, antes de descer.

Na descida passa-se por duas cachoeiras, com destaque para a Véu da Noiva de Teresópolis com cerca de 16 metros de queda.

Livia Vale na Cachoeira Véu da Noiva – Foto: Arthur Zanatto

Mais uma hora de caminhada e chegamos até a Barragem, onde termina a Travessia Petrópolis x Teresópolis. Dali você pode esperar a Van que o Parque disponibiliza para o caminhantes, e que sai de 1 em 1 hora, ela vai te levar até a entrada do Parque em um percurso de 3km por estrada de paralelepípedos, onde você pode pegar seu carro ou chamar um uber.

Entrada da sede do PARNASO em Teresópolis
Foto: Julianu Lorne

O PARNASO também é uma das principais áreas para escalada no país, contando com vias de diversos estilos e dificuldades, desde as mais simples até as mais difíceis e complexas do Brasil. No total, são mais de 130 vias nas diversas áreas de todo o PARNASO.


E aí, decidiu fazer a Travessia mais clássica do Brasil ?

Se quiser fazer no “modo raiz” conte com as minhas dicas e toca pra cima! 

Agora, se você quer fazer a Petrô x Terê de uma forma mais segura e confortável, entra em contato comigo e faça a cotação de um guiamento privativo ou entre em um de nossos grupos com saídas confirmadas.

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Te garanto que será uma experiência incrível! 

Abaixo segue o meu contato, e aproveite para visitar meu Instagram, onde tem fotos de várias Trilhas, Travessias e Expedições pelo Brasil:

Julianu Lorne
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Julianu Lorne

Montanhista, Guia de Trekking e proprietário da Agência RIOEX, onde fazem Trilhas, Trekkings e Travessias MultiSports pelo Brasil. Lorne também embaixador da Sub Sub e da World Adventure Society (WAS) e colaborador do canal Trekking Estilo de Vida. Além de praticante de surf, Jiu Jitsu. Idealizador do PROJETO BOLÍVIA 6x6K.

2 comentários

Fábio Moraes · 25 de maio de 2020 às 12:56

Parabéns ótima matéria, muito esclarecedor

    Julianu Lorne · 29 de maio de 2020 às 00:45

    Olá Fábio,
    Obrigado pelo Feedback.
    Abraço!

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