“Não estou procurando um recorde, mas meus limites!”

Moeses escalou o K2 e o Nanga Parbat em 22 dias sem oxigênio suplementar. Foto: Máximo Kausch

Esses dias eu estava batendo um papo pelo telefone com o Moeses Fiamoncini, sobre quais seriam suas próximas investidas em montanhas acima de 8 mil metros de altitude e sugeri uma entrevista. Moeses bastante tranquilo, e se preparando para embarcar para a Bolívia para iniciar os treinos e aclimatação, me encaminhou uma entrevista que ele concedeu para o site italiano www.montagna.tv sobre o seu projeto de escalar as 14 Oito mil.

Reproduzo aqui no Blog essa excelente entrevista, traduzida do italiano, feita pela jornalista Tatiana Marras (clique aqui para ler a entrevista original) no dia 7 de março:


Está quase na hora das expedições de primavera nos picos de 8000m e os nomes de alguns dos protagonistas da próxima temporada já vazaram nas últimas semanas. Carlos Soria tentará o Dhaulagiri pela décima primeira vez, Marc Batard vai para o Annapurna e Sergi Mingote terá como objetivo a dobradinha Annapurna – Makalu, iniciando assim a segunda parte do seu projeto “14 x 1000”. Na caçada pelos 14 Oito mil, também encontraremos Moeses Fiamoncini.

Nascido em 1979, o alpinista brasileiro conseguiu escalar Nanga Parbat e o K2 em sucessão sem oxigênio em apenas 22 dias na primavera passada. Uma façanha realizada por Krzystof Wielicki no verão de 1996, que alcançou o topo do K2 em 10 de agosto e Nanga em 1 de setembro. Fiamoncini começou a “colecionar” picos de Oito mil em 2018, a partir do Manaslu. Em 2019, além do Nanga, K2 e Everest, também subiu os picos do Lhotse e Dhaulagiri que escaparam por pouco. Este último devido a um acidente a 50 metros do topo. Há três montanhas de 8 mil que Moeses deseja subir entre abril e maio de 2020. O primeiro da lista é o Annapurna. Em relação aos outros dois, apesar de nossa expectativa, ele decidiu nos deixar em dúvida.

Um brasileiro na elite do alpinismo mundial e conquistando os picos no Himalaya, você pode nos contar como nasceu sua paixão pelas montanhas?

“Nasci em uma pequena cidade do Brasil, longe das montanhas. Mas minha família vem de Trento, nos Alpes, e gosto de pensar que talvez seja por uma razão genética que, quando criança, comecei a olhar com curiosidade para uma montanha na frente da casa. Eu tinha 10 anos e todos os dias eu pensava ‘Quem sabe o que você vê lá de cima?’. Então, uma manhã, alguns amigos e eu pulamos o muro da escola e subimos até o topo da montanha. Voltamos para casa já era noite, com meus pais aterrorizados. Eu encontrei aquela sensação de querer subir ao topo para olhar o mundo de cima, anos depois, bem em Trento. E eu a encontro toda vez que vejo uma montanha e decido escalá-la.”

Quando você realmente começou no montanhismo ?

“Entre 2002 e 2008 morei em Portugal. Então eu decidi voltar para o Brasil. Mas antes de voltar para casa, eu queria viajar um pouco. Alguns meses na América do Sul, que depois se transformaram em um ano. E então eu também comecei a escalar entre Chile, Bolívia, Equador e até picos acima de 6000 metros. Não satisfeito, cheguei à África do Sul, peguei um ônibus indo para o norte. Mais um ano de viagem em que subi o Kilimanjaro. E então voei para a França. Hospedado por uma tia, escalei nos Alpes com subidas mais técnicas nos picos de Quatro mil. Eu também comecei com a escalada no gelo. Depois de deixar a França, viajei e escalei na Áustria, Croácia, Eslovênia, Suíça e norte da Itália. Enquanto isso, eu estava sonhando com o Everest.

Quando você decidiu dar o salto qualitativo, visando os 14 Oito mil ?

“Digo que desde 2009 eu já estava cultivando o sonho de subir no teto do mundo. Ao longo dos anos, outros 3 picos de 8000m começaram a me fascinar: o Nanga Parbat, o K2 e o Cho Oyu. Mas eu deixei para lá e decidi antes me testar no Manaslu no outono de 2018. Naquela ocasião, tive a sorte de seguir com a equipe envolvida na preparação das cordas fixas. Para ser minha primeira vez em um colosso do Himalaia, posso ficar satisfeito por ter optado pelo uso de oxigênio apenas a 7.600 metros. Não por fadiga, mas porque senti meus pés congelados e precisava me aquecer. Talvez se eu tivesse subido no dia seguinte com as cordas já fixadas, eu teria conseguido chegar ao cume sem o uso de O2 suplementar. Cheguei ao cume em 23 de setembro com Sergi Mingote. Nós fomos os dois primeiros da temporada. Em casa, eu disse para mim mesmo: ‘Ok, no próximo ano vou para o Everest e o K2, talvez até para o Nanga’. Um sonho lindo, porém impossível de alcançar sem apoio financeiro. Alguns amigos vieram me encontrar com apoio financeiro e eu fui para o Nepal. Uma vez no cume do Everest, decidi escalar todos os 14 Oito mil.”

Que figura no mundo do alpinismo que lhe proporcionou a maior inspiração?

Moeses Fiamoncini e Reinhold Messner no Base Camp do Nanga Parbat – Considerado por muitos com o melhor de todos os tempos.

Reinhold Messner. Gosto muito da foto que tirei ao lado dele no Nanga Parbat no ano passado. Eu não imaginava encontrá-lo lá. Estava nevando muito quando chegamos ao acampamento base e, a certa altura, vi fumaça saindo da chaminé de uma casa que parecia abandonada. Intrigado, fui ver quem estava lá dentro e me vi na frente de Messner.”

Você está buscando um recorde com a subida dos 14 picos de Oito mil?

“No Brasil, o projeto realmente me levou a um recorde, porque nenhum brasileiro conseguiu até agora o cume dos 14×8000. Mas, na realidade, estou simplesmente tentando realizar um sonho de criança e, ao mesmo tempo, entender meus limites. Eu ainda não tenho patrocinadores no momento, não estou tentando provar nada ao mundo ou estabelecendo um prazo. Gostaria de escalá-los sem oxigênio, mas não excluo, como aconteceu comigo no Manaslu ou no Everest, que os utilizarei em caso de necessidade.”

Qual a importância do cume no alpinismo?

“A beleza está na ascensão. O cume é um bônus. Em um ano, participei de 6 expedições nos picos de 8.000 metros e cheguei ao cume do Manaslu, Everest, K2 e Nanga Parbat. Os dois últimos totalmente sem uso de O2 suplementar. Os picos do Lhotse e Dhaulagiri escaparam por pouco de mim. No Lhotse, cheguei a 8300 metros, depois o tempo mudou, o vento aumentou e eu estava sozinho. Eu escolhi descer ao invés de me arriscar a chegar no cume. Meu pensamento, quando estou em um oito mil, é que tenho que ir para casa com segurança.”

Vamos ao que interessa: Você pode nos dar alguns detalhes sobre seus planos para a primavera de 2020?

“Vou partir em breve para me aclimatar. Talvez no Equador, em Cotopaxi e Chimborazo, ou na Bolívia. Depois, voarei para o Nepal para escalar o Annapurna. Quando essa primeira subida estiver concluída, eu teria mais dois picos de 8000m em mente. Mas vou ver passo a passo como as coisas estão indo.”

Você parece confiante…

“No ano passado, subi 8.000 m 3 vezes em 22 dias, sem oxigênio. Subi ao topo de Nanga, depois cheguei a 8.200 no K2, mas devido a uma avalanche que bloqueou a preparação das cordas fixas, tive que descer. E cinco dias depois eu estava no cume. Essa experiência me permite ter certeza de que posso escalar 3 picos de 8000m em uma estação. Mas é a montanha que finalmente decide.”

Você já tem projetos em mente depois das 14 Oito mil?

“Tenho certeza de que continuarei escolhendo novas montanhas para escalar ao redor do mundo. Porque é em grande altitude que me sinto muito bem. É onde me sinto em casa.”


*O projeto 14 Oitomil consiste em escalar todas as 14 montanhas acima dos 8.000m de altitude, localizadas na cordilheira do Himalaia e do Karakoran, na Ásia.

*A primeira pessoa a escalar todas as catorze montanhas com mais de 8000m foi o italiano Reinhold Messner. Ele completou essa façanha em 16 de outubro de 1986 sem utilizar oxigênio suplementar.

*Moeses fez uma mudança de última hora na logística de treino e aclimatação. Ele não vai mais para a Bolívia e sim para os Alpes.

Se você ou sua empresa tem interesse em patrocinar um atleta, Moeses Fiamoncini está buscando patrocinadores.
Entre em contato com o Moeses pelo e-mail: moefiamoncini@gmail.com



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É isso aí galera, forte abraço e até a próxima!


Julianu Lorne

Montanhista, Guia de Trekking e proprietário da Agência RIOEX, onde fazem Trilhas, Trekkings e Travessias MultiSports pelo Brasil. Lorne também embaixador da Sub Sub e da World Adventure Society (WAS) e colaborador do canal Trekking Estilo de Vida. Além de praticante de surf, Jiu Jitsu. Idealizador do PROJETO BOLÍVIA 6x6K.

4 comentários

Fagner Ramborger Camargo · 7 de maio de 2020 às 10:42

Parabéns pela entrevista . Nunca escalei , nem participei de expedições . Mas sou fã desse esporte , admiro quem faz. .Um dia vou participar de alguma expedição. Sonho com isso ..

    Julianu Lorne · 29 de maio de 2020 às 00:43

    Preparação e planejamento é o segredo!
    Pode contar com a RIOEX para iniciar no montanhismo!
    Abraço!

Ana Paula de Aguirre · 11 de março de 2020 às 21:10

Excelente entrevista!! Uma história admirável no montanhismo!!

    Julianu Lorne · 27 de março de 2020 às 17:01

    Obrigado Ana!
    Conte conosco!
    Abs

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